sábado, 25 de julho de 2009

Sida: Miúdos de Moçambique brincam com preservativos usados


Bolas feitas com preservativos e ráfia estão-se a tornar moda em Chimoio, desviando para outro fim um dos meios de combate à sida. O problema é que, por vezes, a "matéria-prima" destes brinquedos já foi usada antes.

É com noticias destas que se percebe a tristeza que é os Países de África, a falta de informação e de controlo em tudo o que se passa por lá pode ser catastrófico e vergonhoso.

Crianças de Chimoio, região central de Moçambique, estão a usar preservativos para fazer bolas de futebol, que conseguem junto de familiares ou em campanhas de combate à Sida, mas também não se importam que seja "matéria-prima" usada.

O fabrico das bolas faz-se juntando vários preservativos, que se enchem de ar e são depois amarrados com ráfia, o que resulta numa bola leve e maleável, desviando para outro fim um dos meios de combate à sida, num país com 16 por cento de adultos infectados.

"Esta bola é a única acessível. Só arranjamos linha pois o preservativo é fácil de encontrar e temos uma bola para jogar. Até fazemos campeonatos inter-bairros e ganhamos dinheiro", explica à Lusa Orlando, 13 anos, um dos artesãos.

Em Chimoio, capital da província de Manica, uma bola feita de preservativos custa até seis meticais, (0,17 euros) enquanto a fabricada industrialmente pode chegar aos 300 meticais (8,6 euros).

Os preservativos são adquiridos gratuitamente junto de mães ou tias, que os recebem em reuniões de planeamento familiar ou nas unidades sanitárias, não se importando depois de os oferecer às crianças, com receio de que os maridos os descubram e as acusem de infidelidade. Noutros casos, são os próprios pais a financiar a compra.

Porém, na maior parte das vezes, as crianças adquirem os preservativos de distribuição gratuita junto das instituições governamentais e não-governamentais, onde a "camisinha" é distribuída gratuitamente sem controlo.

"Várias vezes vimos o nosso cesto de preservativo vazar em meio-dia. Primeiro ficámos felizes, mas, quando descobrimos que as crianças os levavam para fazer balões e bolas, colocámo-los longe do seu alcance", diz em entrevista à Lusa Eugénio Fumane, coordenador do estúdio móvel do Grupo de Educação Social de Manica (GESOM).

O Núcleo Provincial de Combate a Sida (NPCS) em Manica reconhece haver problemas na educação e sensibilização da população no que respeita ao uso de contraceptivos, sobretudo o preservativo, principal meio de prevenção da sida.

"Os preservativos, quando usados consistentemente e correctamente, são um meio eficaz de prevenção contra o vírus de HIV, gonorreia e gravidezes indesejadas. Mas os esforços da sua distribuição podem ser reduzidos a zero quando os mesmos são desviados para produzir brinquedos", lamenta o coordenador do NPCS em Manica.
"Material usado"... risco de doenças

Para Arão Uaaquiço o mais preocupante é o acesso que as crianças têm a preservativos usados, o que as coloca em risco de contrair várias doenças, incluindo a sida. "As crianças, sobretudo crianças de rua, quando não conseguem ter acesso ao preservativo gratuito nas instituições recorrem as latas de lixo, onde às vezes retiram preservativos usados para fabricar bolas de futebol", conta.

Arão Uaaquiço explica ainda que as crianças enchem os preservativos com a boca, o que no seu entender pode causar várias infecções ao entrar em contacto com o sémen depositado no interior. É preciso redobrar esforços nas campanhas e "parar com este escândalo" de uso preservativos como brinquedos, alerta.

Em Chimoio a organização norte-americana Population Services International (PSI) está a desenvolver uma campanha de proibição de venda de preservativos a menores, embora o produto ainda seja de fácil acesso.

No ano passado, mais de 55 milhões de preservativos terão sido vendidos e distribuídos gratuitamente em todo o país.

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